Há
algum tempo falando com um garoto de mais ou menos uns onze anos de idade, ele
me perguntou do que eu brincava quando era criança. Quando comecei
empolgadamente a contar tudo que fazia a primeira reação dele foi: “Nossa, isso
é careta!”. Aquilo me deixou mal e confesso que depois de uma longa conversa
aquele garoto me fez refletir. O que foi que mudou da minha época para a dele?
Os jovens já não têm a mesma infância que se tinha antes, o namoro começa muito
mais cedo, as drogas, os carros e a tecnologia já são ‘quesitos básicos’ para
estarem no grupo, e coincidentemente ou não, as meninas se transformam em mães
muito mais cedo. Esta cena me
faz pensar e comparar com minha infância. Você já fez isso? Pensar em como foi
a sua infância? O que nós fazíamos quando tínhamos a idade destes jovens?
Lembro
de quando ainda estava na escola, recém aprendendo a me comunicar com os
colegas e completamente envergonhado. Normalmente a primeira pergunta que um
garoto fazia para o outro era “você sabe jogar bola?”, “tem álbum de
figurinhas?”. Pronto, ali começava uma amizade. A gente não ligava se o garoto
estava com a roupa da moda, se ele tinha carro ou não, se o tênis dele era o
mais bonito, o que interessava era o simples fato de ele gostar de jogar
futebol ou ter um simples álbum de figurinhas. Lembro que era uma conquista
quando a minha mãe me deixava eu ir à casa de um amigo para brincar de LEGO.
Era uma felicidade só.
Ah
sim, eu também fui virando adolescente. Lembro da época em que chegava da
escola as 12h10min, almoçava em 5min, e já ia me arrumando porque neste meio
tempo já tinha alguém apertando a campainha de casa “rápido vai começar o
jogo!!”. E era isso todo o santo dia. A gente saia para ir às mesmas praças que
existem hoje, mas ia literalmente para usar o que na nossa concepção da época,
era o melhor da praça ‘a quadra de futebol’. Exatamente, por incrível que pareça era o que íamos fazer nas praças quando tinha meus 15 anos. Nós
usávamos a quadra de futebol para jogar futebol, incrível isso não é mesmo? A
gente saia de casa com apenas uma ordem. Voltar antes de anoitecer. Não
tínhamos celular nem Ipods ou Mp3, apenas nosso tênis e uma bola. O que mais
precisa oras? Nossas mães confiavam mais na gente, não precisávamos levar um
aparelho de GPS para que elas nos localizassem. Bebíamos a água da torneira
mesmo e nunca perdi um amigo por causa disso. Meus pais ficavam preocupados com
os perigos que a rua oferecia, mas contentes por eu estar com amigos, hoje,
vejo pais preocupados porque os filhos não têm amigos, mas sim, ‘intimidades
virtuais’.
Me
lembro também dos dias em que levantava cedo no sábado pela manhã para ir locar
fitas de vídeo game, e nem pensar em chegar muito tarde porque assim os
melhores jogos já estariam locados. Quando isso acontecia chegava a hora em que
eu me reunia com os amigos e cada um ajudando com a ‘enorme’ quantia de R$2,00,
passávamos a tarde jogando na locadora mesmo. Aquilo era o máximo. E ninguém se
importava em levantar cedo para se divertir.
Houveram
também as inúmeras partidas de taco, onde cada um conhecia uma regra diferente
e sempre dava discussão. Chegou ao ponto de um amigo ter a “excelente” idéia de
criarmos um regulamento, aquilo foi à solução para muitas tardes de briga. A
última delas foi no dia de fazer o tal regulamento, uma discussão histórica e que
demorou horas, mas tudo acabou bem.
Com
o tempo as amizades com as garotas também foram começando a surgir. Outrora existia
a difícil e melhor parte, a conquista. Era mais difícil do que é hoje, porque
você tinha que realmente conquistar as garotas, e não tinha carro, telefone, e
computador para ajudar, era no papo e pessoalmente mesmo. Nunca deixei de
namorar por causa disso e falo o mesmo de meus amigos e amigas também. O único
filho em que nos preocupávamos de cuidar era Tamagoshi. E Deus o livre deixar
ele sem comida um dia. Naquela época não nos preocupávamos em como iríamos de
um bairro para o outro, se tínhamos dinheiro para gasolina ou não, eu tinha meu
Skate e se o caminho fosse muito esburacado, usava minha antiga bicicleta, uma
Caloi que está inteira até hoje. Com esses meios de transporte eu ia a qualquer
lugar. É impossível não lembrar os inesquecíveis pega-pega-paralítico. Brincadeira
que sempre tinha um que ficava por muito tempo paralisado sem que ninguém fosse
o salvar. A mesma situação acontecia nas partidas de dorminhoco, em que sempre
tinha um jogador ficava com o rosto todo pintado, e por uma ‘mera
coincidência’, era o mesmo que ninguém salvava no pega-pega-paralítico.
Quem
viveu na mesma época ou antes sabe do que estou falando, e não é há tanto tempo
assim. Depois de lembrar-se de tudo isso será realmente não éramos felizes? Será
que não aproveitamos a infância e adolescência porque não tínhamos como ver a
“lições de moral” de facebook e twitter? Bom, eu vejo que sim, eu era muito
feliz e talvez até mais do que os adolescentes de hoje. Não precisava ficar
bêbado para me divertir e dar gargalhadas, bastava que meus amigos estivessem
lá; não precisava de drogas para ir à praça, bastava que tivesse uma bola; e
ficava feliz criando apenas o meu Tamagoshi. Da próxima vez que um garoto me
chamar de ‘careta’, eu vou agradecer a ele e dizer que ele não sabe o quanto
foi bom e quanto aprendi por ter sido ‘”careta”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário