terça-feira, 15 de outubro de 2013

Escolher ou decidir?

Acho impressionante como os comerciais da televisão transformam a vida em algo fácil, simples e descompromissada. Tudo começa com uma simples escolha da coisa certa, é claro! E o certo é o que está sendo anunciado. E você só escolherá isso se tiver bom gosto, se for uma pessoa de classe e inteligente. Enfim, um cara meio paspalho está ferrado. Qual o leite você vai escolher? Qual o par de tênis? Qual cerveja? Qual combustível vai colocar no seu carro com motor “mega total power full flex fuel”? Pois é, o ato de escolher foi banalizado e isso se transferiu para a vida. Principalmente nos mais jovens, a distância entre escolha e a decisão tem ficado cada vez mais longa. Como se bastasse apertar um botão no controle remoto que tudo se ajeitará. A moda em geral dita as regras, diz o que é bom e o que é ruim, o que é bonito e o que é feio, o que certo e o que é errado. Mas ela é traiçoeira, a vida é dura e cobra seu preço muito alto para quem só sabe escolher e não tem coragem para decidir. 

Escolher é ato de impulso, quase descompromissado, na maioria das vezes é sobre o "melhor", o mais fácil e no menor espaço de tempo. Coisas como: Qual canal assistir? Em qual cinema entrar? Que tipo de combustível usar? Qual a cor favorita para pintar a casa? Quero café puro ou com leite? Uso a calça preta ou azul? Decidir, no entanto, relaciona-se, sempre a situações mais graves e determinantes para a vida. É preciso o uso da lógica e da razão, muito pouco do coração; decide-se pelo que é certo e não pelo mais prazeroso. Ou seja, se decide pelo mais correto, que na maioria das vezes, é sempre o mais difícil. Na prática é preciso maturidade para decidir. O que podemos observar é que infelizmente a maioria das pessoas ainda não é madura suficiente e se afasta logo do que é demorado, pensado e dolorido, mesmo que seja o certo a fazer. Casamento, profissão, educação da família, honestidade nas relações humanas, isto se decide não se escolhe. Hoje, os casais se separam como se trocam os canais de TV por um simples controle remoto; o mesmo para as escolas, empregos, amigos, se é que é mesmo possível trocar um amigo. Por que lutar por um relacionamento? Divórcio é fácil. Para que pensar? Pensar dói e cansa e afinal, estamos na vida para "curtir". Por que usar a razão? Li um artigo que falava em dados do IBGE mostrando que nos aproximamos da casa dos 50% no número de separações das classes A e B. Ou seja, parece que muitos estão escolhendo casar, em vez de se decidir pelo casamento. Outrora pensávamos que o matrimônio era sinônimo de compromisso e fidelidade, infelizmente os dados nos mostram o contrário.

Cada vez escolhemos mais e decidimos menos. É a ditadura do controle remoto.  Não é coincidência a preferência das novas gerações pela comida rápida, o tal “fast-food”. Será que aprendemos a lidar com as conseqüências das nossas decisões? Afinal, o que é o certo e o que é o errado? Isto será uma escolha ou uma decisão?




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

É bom ser careta

Há algum tempo falando com um garoto de mais ou menos uns onze anos de idade, ele me perguntou do que eu brincava quando era criança. Quando comecei empolgadamente a contar tudo que fazia a primeira reação dele foi: “Nossa, isso é careta!”. Aquilo me deixou mal e confesso que depois de uma longa conversa aquele garoto me fez refletir. O que foi que mudou da minha época para a dele? Os jovens já não têm a mesma infância que se tinha antes, o namoro começa muito mais cedo, as drogas, os carros e a tecnologia já são ‘quesitos básicos’ para estarem no grupo, e coincidentemente ou não, as meninas se transformam em mães muito mais cedo.  Esta cena me faz pensar e comparar com minha infância. Você já fez isso? Pensar em como foi a sua infância? O que nós fazíamos quando tínhamos a idade destes jovens?

Lembro de quando ainda estava na escola, recém aprendendo a me comunicar com os colegas e completamente envergonhado. Normalmente a primeira pergunta que um garoto fazia para o outro era “você sabe jogar bola?”, “tem álbum de figurinhas?”. Pronto, ali começava uma amizade. A gente não ligava se o garoto estava com a roupa da moda, se ele tinha carro ou não, se o tênis dele era o mais bonito, o que interessava era o simples fato de ele gostar de jogar futebol ou ter um simples álbum de figurinhas. Lembro que era uma conquista quando a minha mãe me deixava eu ir à casa de um amigo para brincar de LEGO. Era uma felicidade só.

Ah sim, eu também fui virando adolescente. Lembro da época em que chegava da escola as 12h10min, almoçava em 5min, e já ia me arrumando porque neste meio tempo já tinha alguém apertando a campainha de casa “rápido vai começar o jogo!!”. E era isso todo o santo dia. A gente saia para ir às mesmas praças que existem hoje, mas ia literalmente para usar o que na nossa concepção da época, era o melhor da praça ‘a quadra de futebol’.  Exatamente, por incrível que pareça era o que  íamos fazer nas praças quando tinha meus 15 anos. Nós usávamos a quadra de futebol para jogar futebol, incrível isso não é mesmo? A gente saia de casa com apenas uma ordem. Voltar antes de anoitecer. Não tínhamos celular nem Ipods ou Mp3, apenas nosso tênis e uma bola. O que mais precisa oras? Nossas mães confiavam mais na gente, não precisávamos levar um aparelho de GPS para que elas nos localizassem. Bebíamos a água da torneira mesmo e nunca perdi um amigo por causa disso. Meus pais ficavam preocupados com os perigos que a rua oferecia, mas contentes por eu estar com amigos, hoje, vejo pais preocupados porque os filhos não têm amigos, mas sim, ‘intimidades virtuais’.

Me lembro também dos dias em que levantava cedo no sábado pela manhã para ir locar fitas de vídeo game, e nem pensar em chegar muito tarde porque assim os melhores jogos já estariam locados. Quando isso acontecia chegava a hora em que eu me reunia com os amigos e cada um ajudando com a ‘enorme’ quantia de R$2,00, passávamos a tarde jogando na locadora mesmo. Aquilo era o máximo. E ninguém se importava em levantar cedo para se divertir.

Houveram também as inúmeras partidas de taco, onde cada um conhecia uma regra diferente e sempre dava discussão. Chegou ao ponto de um amigo ter a “excelente” idéia de criarmos um regulamento, aquilo foi à solução para muitas tardes de briga. A última delas foi no dia de fazer o tal regulamento, uma discussão histórica e que demorou horas, mas tudo acabou bem.

Com o tempo as amizades com as garotas também foram começando a surgir. Outrora existia a difícil e melhor parte, a conquista. Era mais difícil do que é hoje, porque você tinha que realmente conquistar as garotas, e não tinha carro, telefone, e computador para ajudar, era no papo e pessoalmente mesmo. Nunca deixei de namorar por causa disso e falo o mesmo de meus amigos e amigas também. O único filho em que nos preocupávamos de cuidar era Tamagoshi. E Deus o livre deixar ele sem comida um dia. Naquela época não nos preocupávamos em como iríamos de um bairro para o outro, se tínhamos dinheiro para gasolina ou não, eu tinha meu Skate e se o caminho fosse muito esburacado, usava minha antiga bicicleta, uma Caloi que está inteira até hoje. Com esses meios de transporte eu ia a qualquer lugar. É impossível não lembrar os inesquecíveis pega-pega-paralítico. Brincadeira que sempre tinha um que ficava por muito tempo paralisado sem que ninguém fosse o salvar. A mesma situação acontecia nas partidas de dorminhoco, em que sempre tinha um jogador ficava com o rosto todo pintado, e por uma ‘mera coincidência’, era o mesmo que ninguém salvava no pega-pega-paralítico.

Quem viveu na mesma época ou antes sabe do que estou falando, e não é há tanto tempo assim. Depois de lembrar-se de tudo isso será realmente não éramos felizes? Será que não aproveitamos a infância e adolescência porque não tínhamos como ver a “lições de moral” de facebook e twitter? Bom, eu vejo que sim, eu era muito feliz e talvez até mais do que os adolescentes de hoje. Não precisava ficar bêbado para me divertir e dar gargalhadas, bastava que meus amigos estivessem lá; não precisava de drogas para ir à praça, bastava que tivesse uma bola; e ficava feliz criando apenas o meu Tamagoshi. Da próxima vez que um garoto me chamar de ‘careta’, eu vou agradecer a ele e dizer que ele não sabe o quanto foi bom e quanto aprendi por ter sido ‘”careta”.