Acho impressionante como os comerciais da televisão
transformam a vida em algo fácil, simples e descompromissada. Tudo começa com
uma simples escolha da coisa certa, é claro! E o certo é o que está sendo
anunciado. E você só escolherá isso se tiver bom gosto, se for uma pessoa de
classe e inteligente. Enfim, um cara meio paspalho está ferrado. Qual o leite
você vai escolher? Qual o par de tênis? Qual cerveja? Qual combustível vai
colocar no seu carro com motor “mega total power full flex fuel”? Pois é, o ato de escolher foi banalizado e isso se transferiu para a
vida. Principalmente nos mais jovens, a distância entre escolha e a decisão tem
ficado cada vez mais longa. Como se bastasse apertar um botão no controle
remoto que tudo se ajeitará. A moda em geral dita as regras, diz o que é bom e o que é ruim, o que é bonito e o que é feio, o que certo e o que é errado. Mas ela é traiçoeira, a vida é dura e cobra seu preço muito alto
para quem só sabe escolher e não tem coragem para decidir.
Escolher é ato de impulso, quase descompromissado, na maioria das vezes é sobre o "melhor", o mais fácil e no menor espaço de tempo. Coisas como:
Qual canal assistir? Em qual cinema entrar? Que tipo de combustível usar? Qual
a cor favorita para pintar a casa? Quero café puro ou com leite? Uso a calça
preta ou azul? Decidir, no entanto, relaciona-se, sempre a situações mais
graves e determinantes para a vida. É preciso o uso da lógica e da razão, muito
pouco do coração; decide-se pelo que é certo e não pelo mais prazeroso. Ou
seja, se decide pelo mais correto, que na maioria das vezes, é sempre o mais difícil. Na prática é preciso maturidade para decidir. O que podemos observar é que infelizmente a maioria das pessoas
ainda não é madura suficiente e se afasta logo do que é demorado, pensado e dolorido, mesmo que
seja o certo a fazer. Casamento, profissão, educação da família, honestidade
nas relações humanas, isto se decide não se escolhe. Hoje, os casais se separam como se trocam os canais de TV por um simples controle remoto; o mesmo para as escolas,
empregos, amigos, se é que é mesmo possível trocar um amigo. Por que lutar por
um relacionamento? Divórcio é fácil. Para que pensar? Pensar dói e cansa e afinal, estamos na vida para "curtir". Por
que usar a razão? Li um artigo que falava em dados do IBGE mostrando que nos
aproximamos da casa dos 50% no número de separações das classes A e B. Ou seja,
parece que muitos estão escolhendo casar, em vez de se decidir pelo casamento.
Outrora pensávamos que o matrimônio era sinônimo de compromisso e fidelidade,
infelizmente os dados nos mostram o contrário.
Cada vez escolhemos mais e decidimos menos. É a ditadura do
controle remoto. Não é coincidência a preferência das novas gerações
pela comida rápida, o tal “fast-food”. Será que aprendemos a lidar com as
conseqüências das nossas decisões? Afinal, o que é o certo e o que é o errado?
Isto será uma escolha ou uma decisão?